As empresas aprenderam a observar seus ambientes tecnológicos com bastante precisão, mas essa evolução também tornou mais visível uma lacuna: os mesmos recursos que ajudam a identificar falhas e incidentes ainda dizem pouco sobre a forma como decisões cotidianas alteram a exposição ao risco. Quando essa leitura passa a incluir o comportamento das pessoas, a observabilidade amplia seu alcance e começa a revelar como sinais aparentemente isolados podem se acumular até produzir consequências desastrosas para a operação.
A relevância dessa mudança aparece em um mercado que continua aumentando seus investimentos em segurança sem conseguir reduzir, na mesma proporção, a presença do fator humano nos incidentes. O Relatório de Cibersegurança 2025 da Brasscom estima que o Brasil deve investir R$ 104,6 bilhões em segurança digital até 2028, enquanto o Data Breach Investigations Report 2025, da Verizon, mostra que cerca de 60% das violações analisadas envolveram algum elemento humano. Esses números não reduzem o problema a uma falha individual, mas mostram que parte importante da exposição se constrói na relação entre pessoas, processos e controles, algo que raramente aparece por inteiro em um único indicador.
As organizações já produzem informações que ajudam a compreender essa relação, embora cada ferramenta costume mostrar apenas uma parte do que aconteceu. Quando esses registros permanecem separados, servem para contabilizar atividades ou confirmar uma ocorrência; quando são acompanhados ao longo do tempo, passam a mostrar recorrências, mudanças e situações em que o comportamento humano merece uma atenção diferente.
O risco aparece na trajetória
Uma pessoa que clica em uma mensagem simulada não representa, automaticamente, um risco maior para a empresa, porque uma decisão isolada pode ser resultado de uma distração momentânea. O significado muda quando o mesmo comportamento se repete, mesmo depois de ações de conscientização, indicando que aquela exposição não foi reduzida e que insistir na mesma abordagem provavelmente produzirá pouco resultado. E esse mesmo conceito é aplicável a outros tipos de comportamentos dos usuários.
Essa leitura também precisa acompanhar as mudanças na trajetória do colaborador. Ao assumir novas responsabilidades ou passar a lidar com informações mais sensíveis, uma pessoa pode aumentar sua exposição sem que tenha cometido qualquer erro, simplesmente porque suas decisões agora têm um impacto potencial maior para o negócio. Observar essa jornada permite que a segurança reconheça a mudança antes que ela apareça na forma de um incidente.
O valor da observabilidade humana, aquela que é aplicada às pessoas e não ativos tecnológicos, está justamente nessa capacidade de relacionar o comportamento humano ao momento vivido pelo usuário, evitando tanto a conclusão precipitada a partir de um único evento quanto a demora para perceber uma repetição relevante. A análise passa a considerar a trajetória, e não apenas a ocorrência que ficou registrada.
A inteligência artificial depende dessa leitura
Essa visão mais contínua ganha importância à medida que a inteligência artificial assume parte da análise de segurança, já que sua capacidade de encontrar relações em grandes volumes de dados depende da consistência das informações que recebe. Quando os registros chegam fragmentados e sem uma referência sobre a evolução do usuário, a tecnologia consegue localizar anomalias, mas encontra dificuldade para distinguir uma mudança legítima de rotina de uma exposição que realmente exige atenção.
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial também torna os ataques de engenharia social mais convincentes, permitindo que mensagens fraudulentas reproduzam com maior precisão a linguagem e as situações presentes no cotidiano das empresas. Quanto menos estranho o contato parece, mais a identificação do risco depende da compreensão sobre a pessoa envolvida, a atividade que ela exerce e o sentido daquela interação dentro da rotina.
Por isso, a adoção de IA não diminui a importância do aspecto humano na observabilidade. Ao contrário, aumenta a necessidade de construir uma leitura capaz de dar significado aos sinais, para que a automação não se limita a processar mais rapidamente informações que continuam desconectadas.
Da observação à gestão do risco
Quando a empresa consegue entender como a exposição muda ao longo do tempo, também passa a direcionar melhor suas ações. Uma dificuldade que aparece de forma recorrente em determinada área pode indicar que o problema está na rotina ou na maneira como aquele grupo se relaciona com os controles, exigindo uma resposta diferente daquela aplicada a uma ocorrência pontual.
É dessa evolução que o Human Risk Management (HRM) ou Gestão do Risco Humano ganha relevância. Em vez de avaliar apenas quantas pessoas participaram de uma ação ou concluíram um treinamento, a empresa passa a observar se houve mudança real de comportamento e quais medidas produzem resultado em cada situação, aproximando a conscientização das decisões de segurança.
Essa prática precisa estar acompanhada de critérios claros e respeito à privacidade de dados, porque compreender o comportamento não significa vigiar ou rotular pessoas. O objetivo é interpretar de maneira responsável informações que já fazem parte da operação, reduzindo a exposição sem transformar um erro isolado em uma característica permanente do usuário.
A observabilidade avançou porque as empresas perceberam que não poderiam proteger seus ambientes sem compreender o que acontecia dentro deles. Ao incorporar o aspecto humano, essa mesma lógica permite enxergar como decisões, mudanças de rotina e níveis diferentes de exposição se relacionam, dando à segurança as melhores condições para atuar antes que esses sinais se transformem em impactos reais para o negócio.
Natália Santos, gerente de Canais e Marketing da Beephish.
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